**_Olhos com prevenção_** – Orson Peter Carrara
O relacionamento humano nem sempre é harmonioso, normalmente é tenso, por variados motivos, que vão do medo à timidez, do orgulho às pretensões, da ambição à cupidez e mesmo da ganância e até com o desrespeito ou preconceitos diversos.
Para que haja perfeita conexão entre duas ou mais pessoas, é preciso que haja espontaneidade de afeto, sem segundas intenções, sem qualquer prevenção, o que resulta em harmonia que estabelece ambientes agradáveis, sem hipocrisia. O que pode ser visto em todos os segmentos da sociedade. Tanto nesse equilíbrio citado, como na ausência dele, referido no primeiro parágrafo.
A questão é bem definida no estudo do item 5 – capítulo 28 – de _O Evangelho Segundo o Espiritismo_. Embora o título e objetivo sejam específicos: _Reuniões Espíritas_ (englobando itens 4 a 7), o raciocínio cabe em qualquer situação inspirada pela anotação de Mateus (18:20): _Onde quer que se encontrem duas ou três pessoas reunidas em meu nome, Eu com elas estarei_.
No capítulo em referência Kardec colocou modelos de preces (não para serem decorados, mas como referências de estudos), antecedidos de preciosos e compactos _Prefácios,_ onde o critério doutrinário espírita surge com expressão magnífica.
Portanto, desse _Prefácio_ – no caso, recordando as reuniões espíritas – de apenas 4 parágrafos, extraímos em transcrição parcial, essas pérolas:
_1_ – _Estarem reunidas, em nome de Jesus, duas, três ou mais pessoas, não quer dizer que basta se achem materialmente juntas. É preciso que o estejam espiritualmente, em comunhão de intentos e de ideias, para o bem. Jesus, então, ou os Espíritos puros, que o representam, se encontrarão na assembleia._
_2 – (…)_ **_quis Jesus revelar o efeito da união e da fraternidade_**_. O que o atrai não é o maior ou menor número de pessoas que se reúnam, pois, em vez de duas ou três, houvera Ele podido dizer dez ou vinte, mas o sentimento de caridade que reciprocamente as anime. Ora, para isso, basta que elas sejam duas._
_3 – Contudo,_ **_se essas duas pessoas oram cada uma por seu lado_**_, embora dirijam-se ambas a Jesus,_ **_não há entre elas comunhão de pensamentos,_** _sobretudo_ **_se ali não estão sob o influxo de um sentimento de mútua benevolência_**_._ **_Se se olham com prevenção, com ódio, inveja ou ciúme, as correntes fluídicas de seus pensamentos,_** _longe de se conjugarem por um comum impulso de simpatia,_ **_repelem-se._**
_4 – . Segue-se que,_ **_se, numa assembleia numerosa, somente duas ou três pessoas se unem de coração, pelo sentimento de verdadeira caridade_**_, enquanto as outras se isolam e se concentram em pensamentos egoísticos ou mundanos,_ **_Ele estará com as primeiras_**_, e não com as outras._
Tais reflexões (grifos são meus) surgem diante da constatação diária dos _olhos de prevenção,_ diante de pessoas, das presunções e muitas vezes segundas intenções, que precisamos efetivamente vencer para atrair a presença irradiadora espontânea de amor enviado pelos Benfeitores e, claro, por Jesus que prometeu estar com as pessoas que se reúnem em seu nome. E já entendemos que reunir-se em nome Dele é despojar-se de quaisquer sentimentos contrários à fraternidade, agindo com espontaneidade e união no e para o bem.
E isso a começar pela convivência familiar, e no ambiente onde praticamos a fé que adotamos, estendendo-se na vida social em todos os ambientes.
Agir em harmonia, com respeito mútuo em pleno exercício de benevolência, é reunir-se em nome de Jesus, inclusive nos ambientes de religiosidade que procuramos.
Quanta clareza presente nos parágrafos lógicos e profundos de Kardec!
