BELARMINO BICAS

Madre

Pelo Espírito Pelo Espírito Irmão X (Humberto de Campos).

Psicografia de Francisco Cândido Xavier.

Livro: Cartas e Crônicas. Lição nº 16. Página 73.

 Depois da festa beneficente, em que servíramos justos, Belarmino Bicas, prezado companheiro a que nos afeiçoamos, no Plano Espiritual, chamou-me à parte e falou decidido:

– Bem, já que estivemos hoje em tarefa de solidariedade, estimaria solicitar um favor…

Ante a surpresa que nos assaltou, Belarmino prosseguiu:

– Soube que você ainda dispõe de alguma facilidade para escrever aos companheiros encarnados na Terra e gostaria de confiar-lhe um assunto…

– Que assunto?

– Acontece que desencarnei com cinquenta e oito anos de idade, após vinte de convicção espírita. Abracei os princípios codificados por Allan Kardec, aos trinta e oito, e, como sempre fora irascível por temperamento, organizei, desde os meus primeiros contatos com a Doutrina Consoladora, uma relação diária de todas as minhas exasperações, apontando-lhes as causas para estudos posteriores… Os meus desconchavos, porém, foram tantos que, apesar dos nobres conhecimentos assimilados, suprimi, inconscientemente, vinte e dois anos da quota de oitenta que me cabia desfrutar no corpo físico, regressando à Pátria Espiritual na condição de suicida indireto…

Somente aqui, pude examinar os meus problemas e acomodar-me às desilusões…

Quantos tesouros perdidos por bagatelas!

Quanta asneira em nome do sentimento!…

E, exibindo curioso papel, Belarmino acrescentava:

– Conte o meu caso para quem esteja ainda carregando a bobagem do azedume!

Fale do perigo das zangas sistemáticas, insista na necessidade da tolerância, da paciência, da serenidade, do perdão!

Rogue aos nossos companheiros para que não percam a riqueza das horas com suscetibilidades e amuos, explique ao pessoal na Terra que mau humor também mata!…

Foi então que passei à leitura da interessante estatística de irritações, que não me furto à satisfação de transcrever:

Belarmino Bicas – Número de cóleras e mágoas desnecessárias com a especificação das causas respectivas, de 1936 a 1956:

1.811 em razão de contrariedades em família;

906 por indispor-se, dentro de casa, em questão de alimentação e higiene;

1.614 por altercações com a esposa, em divergência na conduta doméstica e social;

1.801 por motivo de desgostos com os filhos, genros e noras;

11 por descontentamento com os netos;

1.015 por entrar em choque com chefes de serviço;

1.333 por incompatibilidade no trato com os colegas;

1.012 em virtude de reclamações a fornecedores e lojistas em casos de pouca monta;

614 por mal entendidos com vizinhos;

315 por ressentimentos com amigos íntimos;

1.089 por melindres ante o descaso de funcionários e empregados de instituições diversas;

615 por aborrecimentos com barbeiros e alfaiates;

777 por desacordos com motoristas e passageiros desconhecidos, em viagem de ônibus, automóveis particulares, bondes e lotações;

419 por desavenças com leiteiros e padeiros;

820 por malquistar-se com garçons em restaurantes e cafés;

211 por ofender-se com dificuldades em serviços de telefones;

90 por motivo de controvérsias em casas de diversões;

815 por abespinhar-se com opiniões alheias em matéria religiosa;

217 por incompreensões com irmãos de fé, no templo espírita;

901 por engano ou inquietação, diante de pesares imaginários ou da perspectiva de acontecimentos desagradáveis que nunca sucederam.

– Total: 16.386 exasperações inúteis.

Esse, o apanhado das irritações do prestimoso amigo Bicas: 16.386 dissabores dispensáveis em 7.300 dias de existência, e, isso, por quatro lustros mais belos de sua passagem no mundo, porque iluminados pelos clarões do Evangelho Redivivo.

Cumpro-lhe o desejo de tornar conhecida a sua experiência que, a nosso ver, é tão importante quanto as observações que previnem desequilíbrios e enfermidades, embora estejamos certos de que muita gente julgará o balanço de Belarmino por mera invencionice de Espírito loroteiro.

 

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São 38 anos de uma história real, verdadeira, na seara do bem, contada por muitas pessoas.
Dois espíritos que planejaram suas vidas em parceria no plano espiritual, reencarnaram com propósitos de trabalho e cumpriram suas metas ou talvez até as superaram. 

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